PENSAMENTO

A igreja é a única organização que existe primariamente para benefício dos não-membros” (C. S. Lewis)

30/04/2008

LIDERAR OU SERVIR ?

Liderar ou servir?

O moderno conceito de liderança é estranho às Escrituras, que afirmam que quem quiser ser líder deve ter postura de servo

Existe na Igreja Evangélica contemporânea uma preocupação muito grande em capacitar e treinar pastores, líderes e missionários. É um anseio legítimo, já que muitos obreiros tiveram uma preparação acadêmica e técnica deficiente; e também porque, como em todo campo de atividade humana, a obra de Deus tem a necessidade de constante atualização e aprofundamento – isto é, de uma educação contínua. No entanto, na maior parte do tempo, os programas de treinamento e capacitação voltados para dirigentes cristãos são baseados em técnicas seculares. O objetivo de tais procedimentos é aprimorar habilidades, aumentar o desempenho e maximizar os resultados. Ou seja, conceitos de mercado. A proposta e a linguagem destes programas é, geralmente, distante do projeto de Jesus de Nazaré.

A partir dessa tendência, que ganhou força a partir dos anos 1990, passamos a correr o risco de ver uma geração de pastores eficientes no domínio de técnicas de gerenciamento, marketing e formação de equipes vencedoras, mas com uma vida espiritual precária. O resultado pode ser visto na trajetória de inúmeros líderes bem sucedidos em público, mas que camuflam suas crises espirituais, existenciais e emocionais. Gente que esconde tremendos dramas familiares e crises pessoais atrás do ativismo e de discursos bem elaborados.

Esse negócio de treinamento de líderes por meio de técnicas é uma idéia secular. Muito boa, aliás, para executivos, gerentes de negócios ou coordenadores de equipes de vendas. Funciona bem no mundo corporativo, em que o coração e os sentimentos costumam valer menos que os gráficos de lucratividade. Mas esse conceito de liderança é estranho às Escrituras, que afirmam que quem quiser ser líder deve ter postura de servo. A Bíblia afirma ainda que Deus usa pessoas fracas, sobre as quais o seu poder se manifesta.

Se procurarmos o equivalente no ensino de Jesus Cristo, teremos que falar então de formação de servos pelo exemplo e amizade. Treinamos líderes para serem bem sucedidos, e por outro lado, formamos servos para se doarem sacrificialmente e desinteressadamente, cuja motivação primária é servir aquele que os enviou. Essa motivação independe de sucesso ou resultados e constitui uma diferença básica entre os dois conceitos: o primeiro oriundo das técnicas de admistração de recursos humanos das grandes corporações, e o segundo inspirado na vida e no ministério de Jesus de Nazaré.

A formação dos discípulos de Cristo aconteceu no campo missionário. Ela se desenrolou nas estradas empoeiradas de Israel, em contato direto com pessoas perdidas e necessitadas, com baixo custo. Já o moderno treinamento de líderes, em geral, acontece em ambientes refrigerados de bons hotéis, com apostilas bem preparadas, preletores acadêmicos, exposições com datashow e participantes ostentando crachás coloridos e notebooks.. O custo é elevado e o financiamento, geralmente, oriundo do exterior. O critério de avaliação pastoral é a curva de crescimento numérico da igreja e o desempenho do líder como gerente de bons programas e motivador de pessoas. Isso gera uma enorme crise de vocação para aqueles que resistem ao modelo do mercado adotado pelas igrejas de resultados, de rápido crescimento de audiência e faturamento.

Mesmo assim, tenho grande respeito por homens e instituições que se dedicam a treinar líderes no contexto de igreja evangélica. Gostaria muito de vê-los integrando mais a dimensão espiritual, pois muitos dos nossos pastores já não sabem mais ler a Bíblia devocionalmente e tampouco orar para se relacionar intimamente com Deus. Tendo chegado onde estão, já não sentem mais a necessidade de continuar crescendo na dimensão da transformação do caráter por meio do quebrantamento e da confissão. Tornam-se pessoas isoladas, sem amigos do coração, resistentes à exortação e rodeados de seguidores deslumbrados.

Carecemos de homens e instituições que se dediquem a ajudar pessoas separadas para o ministério a resgatar o sentido da vocação e da intimidade com Deus por meio da leitura bíblica e da oração – o que significa, necessariamente, a andar na contramão, resistindo às tentações e ao fascínio das técnicas seculares de liderança. Existe uma diferença fundamental entre investir em pessoas fornecendo ferramentas para o sucesso no ministério e a formação de servos quebrantados.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a discernir a diferença entre o cristianismo que forja homens e mulheres que buscam servir a Deus e aos homens com santidade e sacrifício e o capitalismo (ou seria capetalismo?) que gera líderes religiosos vaidosos, ambiciosos e endinheirados.

Osmar Ludovico da Silva

2 comentários:

james disse...

Graça e Paz esteja convosco.

Texto bastante atual, reflete o meu pensamente do momento ocorrido no cenário nacional protestante, onde homens se intitulam "lideres" sem nunca terem sido, uma preocupação constante com o exibicionismo excêntrico acadêmico com a vendagem de livros e mais livros, onde a espiritualidade está sendo colocada de lado, nem por perto seria a segunda preocupação dos "pastores de plantão", principalmente nas Assembléias de Deus.

Gostaria de estar reproduzindo este texto em meu blog.

Fraternalmente,
James
www.jesusmaioramor.blogspot.com

Anónimo disse...

que a paz do senhor esteja contigo.

amei a sua colocação, são poucos os que tem coragem de relatar a realidade existente em nosso meio. atualmente só se sabe pregar prosperidade vitória e dizer que o estamos passando é a vontade de Deus. na verdade passamos pela vontade de Deus sim, mas o que estamos fazendo para Deus.Deus realiza os nossos sonhos quando nos pérmitimos sonhar e fazer a vontade de Deus. Ide a todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.